Espaço perfeito para
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Gravura do Palácio Castelo Melhor, publicada em 1863 na revista "Archivo Pittoresco", Vol. VI, pp. 253-255, em que se pode observar o aspecto que o edifício então apresentava. Imagem gentilmente cedida pela Hemeroteca Municipal de Lisboa.

O Palácio Foz, ou mais correctamente Palácio Castelo Melhor, foi concebido como projecto no século XVIII, tendo-se arrastado a sua construção até meados do século passado. Embora a fachada e estrutura geral possam ser consideradas características da arquitectura setecentista já liberta da influência barroca para se subordinar ao “gosto novo” italiano, o interior, refundido posteriormente, tem decoração de carácter “revivalista”, muito em voga na segunda metade do século XIX.

O local onde se ergue o edifício apresenta hoje, como se sabe, fisionomia bem diversa da que ostentava pouco antes da respectiva fundação. Existia ali, então, um extenso terreno cultivado, as hortas “de Valverde” e “da Cera”, sobre as quais foi construído e plantado, depois de 1755, o “Passeio Público do Rossio”, jardim gradeado concebido pelo arquitecto Reinaldo Manuel, que ia do largo do mesmo nome até à Praça da Alegria, entre as ruas chamadas “Oriental” e “Ocidental”, e que teve a sua inauguração em 1764. Era primitivamente cercado de muros revestidos de hera e louro, com quinze janelas de grade de cada lado, sendo mais tarde gradeado em toda a volta e beneficiado com a construção de três lagos. Este jardim constituiu, durante muitos anos, o centro de reunião da sociedade lisboeta, e foi, ao que parece, com grande desgosto, que se assistiu à sua demolição em 1879, para a abertura da Avenida da Liberdade, tendo chegado a esboçar-se, a esse respeito, um forte movimento de protesto.

No seu limite oriental erguia-se um velho palácio onde residia, nos meados do século XVIII, o 4º conde (e mais tarde 1º marquês) de Castelo Melhor, D. José Vasconcelos e Sousa Câmara Faro e Veiga. Como o terramoto de 1755 tivesse arrasado o edifício, tornou-se necessário proceder a nova construção, optando-se desta vez pela zona ocidental das hortas, junto ao decadente palácio contíguo à já então existente rampa da Glória, que havia em tempos sido propriedade dos condes de Castanheira.

Ignora-se o nome do autor do traçado do Palácio, durante muitos anos atribuído ao arquitecto italiano Francisco Xavier Fabri. Os biógrafos seus compatriotas, nomeadamente Somoggia e até o nosso Ayres de Carvalho são coincidentes na inviabilização dessa hipótese, já que mencionam a sua chegada a Portugal por Tavira, em 1790, a convite do bispo da Diocese do Algarve, D. Francisco Gomes de Avelar, a fim de proceder a restauros na Sé de Faro, severamente atingida pelo Terramoto. Quando da sua chegada a Lisboa, por solicitação do Marquês de Castelo Melhor já há mais de duas décadas se tinha iniciado a nova construção. É no entanto quase certo que tenha presidido às obras até à sua morte, em 1807. Os trabalhos ficaram então suspensos, para serem retomados em 1846. A inauguração, realizada com especial solenidade no que respeita a capela consagrada a Nossa Senhora do Amor de Deus, o mais rico templo privado da Lisboa de então, data de 1858. A família Vasconcelos instalou-se por fim na nova residência, sendo então ordenada a demolição do velho Palácio dos Condes de Castanheira, onde até então tinha permanecido, em condições necessariamente precárias. Pouco se sabe acerca do interior do Palácio Castelo Melhor excepto que, a avaliar pela referida Capela deveria ser uma mansão sumptuosa, recheada de madeiras exóticas especialmente enviadas do Brasil pelo irmão do Conde, D. António Vasconcelos, à data Vice-Rei.

Pouco tempo usufruiu a família da casa que quase cem anos antes mandara edificar (é para o ano de 1777 que convergem as opiniões relativas à sua fundação). Em 1889 a sexta Marquesa, D. Helena, vendeu-o e a Tristão Guedes de Queiroz Correia Castelo Branco, senhor de alguma linhagem herdada da pequena nobreza rural do norte, com antepassados que foram ostentando os títulos de barão, visconde e conde. Tinha residência num palacete às Chagas, onde se dedicava ao comércio de arte (o “coleccionismo”, de melhor ou pior qualidade, estava então na moda).Esta actividade e o exercício de funções públicas para que era frequentemente nomeado grangeara-lhe larga fortuna, pelo que resolveu estabelecer-se em 1888 no Palácio Castelo Melhor que se debruçava já sobre a Avenida, aberta quase dois anos antes. Alugou-o nessa data à Marquesa viúva, comprando-lho logo no ano seguinte, em negócio não de todo transparente. Tinha então o título de Marquês da Foz.

Seguem-se, em resumo, as razões desta suspeita. Sendo Tristão Guedes à data, administrador da Companhia Real do Caminho de Ferro e havendo que fazer passar um túnel para circulação das composições entre a Estação Central e o limite da cidade (hoje Campolide), optou por fazê-lo abrir na encosta de S. Roque de forma a mergulhar sob a rampa da Glória um pouco a ocidente do torreão norte do edifício. Esta estratégia permitia-lhe expropriar assim a fidalga, à excepção de um pequeno trecho de jardim, e por razões de utilidade pública, dos valiosos terrenos que constituíam o parque da residência. Entalado entre os novos espaços agora atribuídos aos caminhos de ferro e a Avenida, aberta em 86, o velho Palácio, que durante mais de um século fora pertença de uma das mais antigas e ilustres famílias portuguesas, ter-se-ia assim transformado em presa fácil para o Marquês, estereótipo do seu tempo, homem de ostentação e amante das festas de boulevard, que em poucos meses o adquiriu, ao que consta, por preço razoável. Durante uma dúzia de anos, não mais, pertenceu o edifício ao titular da Foz, que nele introduziu tais modificações e de tal forma o recheou de património que, à excepção das paredes exteriores e da grande e rica capela pouco ficou que lembrasse os Castelo Melhor. Encarregou um prestigiado arquitecto, José António Gaspar, do desenho e construção dos interiores, que os fez como se de obra nova se tratasse. Ao escultor e entalhador Leandro Braga, o mais talentoso entre nós e ao nível dos melhores congéneres europeus do tempo, atribuiu a responsabilidade da decoração. A ambos concedeu os mais amplos poderes para contratar e encomendar quem e o que entendessem, com o único limite da sua aprovação final. Trabalhando em estreita colaboração e respeitando, como já se disse, a capela, chamaram a participar nas obras um grupo de artistas notáveis na época, a começar pelo escultor Simões de Almeida que se ocupou da fachada: enriqueceu as molduras das sacadas, acrescentou o frontão do torreão norte armoriando-o, assim como ao seu igual a sul, construiu uma balaustrada coroada de pináculos e assentou, por fim, nos acrotérios grupos escultóricos de talhe cuidado e razoável proporção. O telhado foi substituído por uma alta mansarda francesa, estudada em Paris, na qual fez rasgar cinco janelas, também de sacada, separadas por quatro óculos ovais, e debruçadas sobre troços de balaústres limitados por sólidas urnas de cantaria. Aqui, diz-se, mandou o marquês e mais ninguém, embora quem a veja de longe fique desde logo com a ideia de que vindo, como veio, altear o edifício, como que lhe acrescentou o andar que Fabri, cem anos antes tinha riscado, embora tal nunca tivesse passado do papel. Sem ela, enfim, a obra do escultor pouco ou nenhum sentido faria.

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Página atualizada em 28-07-2017 15:43:00

Palácio Foz - Praça dos Restauradores
1250 - 187 Lisboa
 

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